Quando tinha aproximadamente 4 anos, havia uma propaganda da Johnson & Johnson, com esse hominho acima, não sei se você é da minha época, mas, esse bonequinho dançava e rebolava ao sair do banho com a toalha na mão.
Ele passava a toalha pelo corpo e finalizava a arte colocando a toalha em um ouvido e saindo pelo outro. Não bastasse ele fazia a mesma coisa com o cotonete. Enfiava o cotonete de um lado e saia pelo outro. Gente estou falando de mais ou menos em 1982 por ai, faz tempo ... Muito tempo, rs...
Eu, estava brincando com uma amiguinha mais velha em minha casa de praia, quando ela mexendo no armário da minha mãe encontrou o pacote de cotonetes.
Logo lembramos da propaganda, e ela como era mais velha pegou o tal produto e colocou um em cada ouvido. Como a orelhinha dela já era bem formadinha, cada cotonete ficou bem encaixado em seu ouvido na horizontal. Ela, tentou fazer em meu ouvido, mas as hastes caiam. Não ficava na horizontal como o dela.
Criança e inocente, acabou batendo as mãozinhas nos dois cotonetes, onde me lembro de ter gritado de muita dor, ter desmaiado, e ter visto minha mãe muito assustada ao meu lado. Ouvi um grande tuim e silêncio, muito silêncio ...
Não conseguia ouvir nada, muito baixo... era como se eu tivesse anestesiada ... e da cena me lembro da minha mãe segurando um pano nos meus dois ouvidos pois deles saiam sangue.
Minha mãe me levou correndo ao hospital. Havia perfurado os tímpanos.
Na mesma hora, minha mãe arrumou nossas malas, e voltamos para São Paulo. Todos os médicos desenganaram à mim dizendo que jamais voltaria a ouvir. Mas, minha mãe não desistiu. Fomos à diversos médicos, e graças a Fé da minha mãe hoje eu ouço e falo.
Ouço com dificuldades, não tenho a audição cem por cento. Os sons agudos é pouco o que eu ouço. Fiz fonoaudióloga até meus 14 anos, onde eu sofria horrores, em uma sala escura eu tinha que repetir os sons do esse, ze, enfim, tentar melhorar minha fala com a falta de sons agudos.
Na época havia aquele aparelho auditivo enorme, e em momento algum cogitei em usá-lo. Tinha vergonha sim. Meus amiguinhos da escola cochichavam e zombavam de mim. Até que saiu o primeiro aparelhinho que colocava dentro do ouvido. Eu, fui uma das primeiras crianças à experimentar.
Mas, não gostei.
Aceitei com afinco que eu tinha uma dificuldade, sim magoa até hoje quando alguém me pergunta porque falo do jeito que eu falo perguntando se eu tenho língua presa. Não tenho língua presa, apenas tenho dificuldades de pronunciar certas palavras. Como o som do esse, ze, tipo pizza, antes eu tinha uma dificuldade enorme, hoje como fiz muita fôno já consigo falar corretamente.
Não ouço às vezes meu telefone de casa tocar, campainha, celular. Sim, digo que eu superei e eu respeito minha deficiência, mas creiam, não é nada gostoso. As pessoas são preconceituosas sim e são poucas as pessoas que não jogam sua deficiência em sua cara.
Antes, eu não contava para ninguém o meu problema, hoje já conto com a maior naturalidade. Meu filho sabe se ao tocar a campainha e eu não ouvir, logo ele me avisa com muito carinho ...
_"Mamãe a campainha tocou, vamos ver quem é?"
Ou...
_"Mãe o seu celular está tocando ..."
Acho um absurdo como há pessoas que magoam as outras tocando em uma ferida tão dolorida, que mesmo você lutando, se aceitando sempre jogam em sua cara esse "Defeito".
Não sou defeituosa, sou uma vencedora, não sou surda, tenho deficiência, e não é por isso que me faz ser melhor ou pior que você.
Tenho pena de pessoas assim, se ela é cem por cento normal, que bom, mas Deus sabe ao certo o porque eu tenho essa dificuldade, e eu não reclamo, pelo contrário. Agradeço à Deus pois eu ouço muito bem perto de pessoas que não tem a oportunidade de ouvir como eu.
Não ouço muito bem os pios dos pássaros, o menino falando bem lá embaixo, mas eu ouço ... com limitações e sou feliz por ouvir. Não uso aparelho auditivo e me aceito do jeitinho que eu sou...
Só fico triste quando vejo pessoas que não entendem a dificuldade que eu tenho.
Um exemplo dessas pessoas é o meu irmão mesmo que vive dizendo que eu me escondo atrás do meu problema me fazendo de coitadinha. Coitadinha Jamais, nunca usei essa minha dificuldade para conseguir alguma coisa, pelo contrário, nunca falei para ninguém o que eu tinha para não haver tratamentos diferentes.
Eu, em escola alguma que eu estudei, usei minha audição como desculpa para não ir bem em certa prova. Prestava muito atenção na aula e agia como uma aluna normal. Tinha dificuldades em ditados mas sempre perguntava o quê e tudo ficava bem ...
Sou do jeitinho que eu sou, assim a Gi...
Ser assim faz eu ser diferentes de outras mas, eu me amo desse jeitinho ...
Admiro demais a Kariny, e a acho uma vencedora, sei o que ela passa, eu posso não ser considerada uma PNE (Portadora de Necessidade Especial) mas tenho dificuldades e sofro preconceito sim.
Então, assumo perante à todos que a loira aqui não tem 100% de audição, mas eu tenho 100% de coração e 100% de superação. Não estou desabafando para vocês me admirarem mais ou gostarem mais de mim, estou escrevendo aqui, que nós devemos nos aceitar da forma e do jeito que nós somos.
Então, não zombem, respeitem, ajudem e jamais joguem na cara de uma pessoa o que tanto magoa ela por dentro ...
Aceite cada um com suas dificuldades, beleza, deficiência, eficiência, simpatia, aceite cada um do jeitinho que ela é...
À cada dia eu me aceito mais e à cada dia eu me amo muito mais...
Um beijo muito carinhoso,
da loira Gi ...
Obs. Ká, te admiro demais por tudo que você passou e por tudo que você ainda passa. Você é uma vencedora viu?
Te adoro !!!